Os bancos também terão de lidar, daqui para a frente, com o novo ciclo de alta da taxa Selic, deflagrado em março. O movimento tem impacto inicial negativo, já que o reflexo nos custos de funding é imediato, enquanto leva-se tempo para ajustar a margem financeira de crédito, pois a carteira é formada em grande parte por operações prefixadas.
Entre os bancos, o que deve ter a maior recuperação anual no lucro é o Bradesco, com um salto de 84%, segundo a média das estimativas. Para o UBS, apesar de uma leve alta na inadimplência, o custo de risco do banco deve cair. Esse fator, combinado com uma melhora na eficiência, deve levar o retorno (ROE) da instituição financeira para perto de 20%. “O Bradesco reduziu sua folha de pagamento em 6,4 mil funcionários no quarto trimestre e isso deve levar os gastos operacionais a ter uma contração considerável no primeiro trimestre”, dizem os analistas do banco suíço.
Na visão do Bank of America, a redução de despesas e a queda do custo de capital devem ser os destaques positivos do Bradesco no período. “Conforme mencionado na teleconferência do quarto trimestre, as receitas (tarifas e margem financeira) devem se recuperar ao longo do ano, convergindo para o guidance no segundo semestre”, afirma.
Na sequência dos melhores resultados deve vir o Itaú, com alta anual de 71,2% no lucro. “Acreditamos que o Itaú tem sido o banco brasileiro mais proativo em ajustar seu modelo de negócios ao ambiente mais desafiador, ao reduzir custos, realizar aquisições oportunísticas, melhorar o canal digital e reduzir o risco na sua carteira”, dizem os analistas do J.P. Morgam.
O Banco do Brasil deve ter um aumento anual de 18,6% no lucro. “A normalização das provisões e a redução das despesas operacionais do Banco do Brasil devem permitir ao banco apresentar um bom resultado, embora o aumento modesto da margem financeira, riscos legais e maiores provisões para impostos possam ser alguns obstáculos”, destacam analistas do Safra.
No entanto, o destaque do balanço do BB não deve ficar com os números em si, mas com as sinalizações que serão dadas pelo novo presidente. Fausto Ribeiro assumiu o comando do BB no início deste mês, após a saída de André Brandão, e sua indicação foi criticada por conselheiros, que deixaram o banco. Dois vice-presidentes também deixaram os cargos após a chegada do executivo, e mais alterações na administração devem ocorrer.
Em sua primeira comunicação para os funcionários, Ribeiro disse que o BB é de mercado e do Brasil. Na ocasião, disse que assumia o compromisso de conduzir a instituição financeira oferecendo “retornos adequados” aos acionistas, mas ao mesmo tempo atuaria “de forma integrada e sinérgica com as diretrizes” do controlador e em linha com o desenvolvimento do país.
O menor crescimento do lucro provavelmente ficará com o Santander. A questão é que, no primeiro trimestre do ano passado, o banco não chegou a fazer provisões extraordinárias para atravessar a crise, diferentemente dos pares. Por isso, a média das projeções indica agora uma queda anual de 1,3% no lucro. “As provisões devem aumentar na passagem do quarto para o primeiro trimestre, com a qualidade dos ativos mostrando pequenos sinais de deterioração. A margem financeira deve crescer menos que a carteira, devido ao mix mais fraco. Na verdade, a carteira deve desacelerar, devido a crescimentos mais fracos de crédito pessoal e para pequenas e médias empresas”, aponta o Goldman Sachs.
Apesar da visão um pouco mais cautelosa, o J.P. Morgan aponta que os sistema financeiro brasileiro está com níveis de liquidez e capital confortáveis e um índice de cobertura bastante robusto. Em relatório com o sugestivo título de “Permanecendo fortes diante da adversidade”, os analistas afirmam que a inadimplência deve ter um pico na segunda metade do ano, mas provavelmente não haverá necessidade de mais provisões para lidar com a pandemia. Apesar disso, uma reversão desses colchões – como ocorreu com os bancos americanos no primeiro trimestre – não é provável.