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Dólar supera R$ 5,51 com exterior tenso e fiscal

Na renda variável, o Ibovespa recuou 2,92%


Fonte: Valor Econômico - 26 de Fevereiro de 2021

A aversão ao risco nos mercados globais, disparada pela alta dos juros americanos, atingiu em cheio os ativos brasileiros, que sofrem também com a fragilidade da situação fiscal e as incertezas sobre os rumos da Petrobras. Penalizados por essa combinação de fatores, o Ibovespa perdeu quase 3% e o dólar voltou para R$ 5,51, a despeito das intervenções do Banco Central no Mercado de Câmbio.
 
Na renda variável, o Ibovespa recuou 2,92%, aos 112.318 pontos, em linha com as bolsas de Nova York e sob a influência de pesos-pesados como Vale, Itaú e Petrobras - cujas ações PN recuaram 5% e as ON, 4%, mantendo o receio sobre a nova administração em foco.
 
O dólar, por sua vez, encerrou o dia em alta, de 1,70%, a R$ 5,5129, apesar de duas atuações do Banco Central que injetaram US$ 1,53 bilhão no mercado de câmbio à vista. Enquanto isso, os juros futuros dos Depósitos Interfinanceiros (DI) tiveram novo avanço, com as taxas para janeiro de 2027 escalando 20 pontos-base, para 7,20%.
 
Os ativos locais sofreram fortes perdas, pressionados principalmente pela alta dos juros dos Treasuries de dez anos dos Estados Unidos, que renovaram as máximas de um ano ao atingirem o patamar de 1,556%.
 
Segundo Marcos Mollica, gestor do Opportunity Total, o movimento das taxas americanas torna os investidores globais mais exigentes - e o país acaba ficando para trás na lista justamente pela desconfiança fiscal que o país transmite. Para ele, a PEC Emergencial não está com cara de que vai resolver muita coisa e a situação da Petrobras só foi “mais um choque negativo na credibilidade do governo".
 
Ontem, por exemplo, as declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre Petrobras mantiveram a cautela no mercado. “Todos aqueles que dependem do produto da Petrobras vão se surpreender positivamente com seu trabalho quando ele [general Joaquim Luna e Silva] assumir”, disse o presidente.
 
Em um clima de desconfiança, os agentes do mercado seguem atentos à agenda de reformas, em particular a possibilidade da PEC Emergencial ser fatiada e desidratada, deixando de lado contrapartidas ao auxílio emergencial. Questionado sobre a possibilidade da PEC ser enxugada e trazer apenas o auxílio e o estado de calamidade, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, não respondeu diretamente e apenas disse que “logo vamos ter o resultado disso muito em breve”.
 
Como resultado, o mercado elevou a chance de uma elevação de 0,50 ponto percentual da Selic para 95% ontem - a probabilidade era de 76% na sexta passada. “Se os mercados continuarem pressionados pelo juro americano e riscos locais, o BC vai ser forçado a subir já na próxima reunião”, diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho no Brasil.
 
O fato de o BC ter agido apesar do movimento em linha com seus pares sugere incômodo da instituição com o nível acima de R$ 5,50, disse Sergio Goldenstein, consultor independente e estrategista da Ohmresearch. Para ele, o dólar alto e o risco fiscal e inflacionário apontam para elevação de 0,50 ponto na Selic no mês que vem. “Se o BC for ‘dovish’ e não elevar a Selic em 50 pontos-base, o resultado seria mais pressão na taxa de câmbio. Um tiro no pé”, disse o ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto (Demab) do BC.