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Com pressões variadas, IGP-M sobe 23% no ano, maior alta desde 2002

Câmbio, commodities em elevação e novos hábitos de consumo influenciam o resultado


Fonte: Valor Econômico - 04 de Janeiro de 2021

Num ano marcado por escalada do dólar, valorização de commodities no mercado internacional, mudança nos padrões de consumo da população brasileira, com aumento da demanda por bens em detrimento dos serviços, e, ainda, escassez de insumos industriais, a inflação anual medida pelo Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) foi a mais elevada em quase duas décadas.
 
Divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o IGP-M desacelerou de 3,28% em novembro para 0,96% em dezembro. No acumulado de 2020, porém, o índice que corrige aluguéis teve alta de 23,14% - a maior desde 2002, quando subiu 25,31%. Em comum com aquela época, houve forte depreciação cambial ao longo deste ano, de quase 25%.
 
Em dezembro de 2019, a taxa de câmbio média foi de R$ 4,17. Em igual mês de 2020, ficou em R$ 5,20. Não por acaso, o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA-M) - que tem peso de 60% nos IGPs e possui grande participação de commodities em sua composição - registrou inflação de 31,63% em 2020, também a maior taxa desde 2002 (33,64%).
 
Para economistas, o dólar deve dar alívio à inflação no atacado em 2021, refletindo uma possível resolução para o impasse fiscal e a melhora do cenário externo, com a vacinação contra a covid-19, o que vai reduzir a alta do IGP-M no ano. No primeiro trimestre, porém, ainda há algumas pressões de custos no radar vindo da indústria, devido ao novo ganho de fôlego das cotações do minério de ferro e ao encarecimento dos combustíveis.
 
O IPA-M cedeu de 4,26% para 0,90% entre a medição passada e a atual. O resultado foi influenciado por deflação de 1,82% de produtos agropecuários, que aumentaram 8,96% em novembro, enquanto os produtos industriais se mantiveram em campo positivo, ao passarem de 2,31% para 2,09%.
 
Segundo André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) do Ibre/FGV, as matérias-primas brutas, que foram a maior pressão sobre os preços ao produtor ao longo de 2020, puxaram a desaceleração no último mês do ano, ao diminuírem 0,74%. Dentro desse subgrupo, algumas commodities contribuíram com a baixa, como soja (11,91% para -8,93%), bovinos (7,40% para -0,58%) e milho (21,85% para -2,17%).
 
“Mas a desaceleração de novembro para dezembro precisa ser tratada com parcimônia. Os preços da soja e do milho seguem em alta em bolsas internacionais e isso pode limitar a magnitude das quedas nas próximas apurações”, disse Braz. Há, ainda, outro vetor de aceleração na parte industrial do IPA: no último mês do ano, o minério voltou a subir, com alta de 4,34%, depois de cair 2,39% em novembro.
 
“Vamos continuar observando certa pressão na parte industrial no começo do ano”, avalia Daniel Lima, economista do banco ABC Brasil, que destaca a demanda firme da China pela commodity metálica como impacto altista sobre os preços. “Outro fator que deve puxar o IPA industrial no começo do ano devem ser os combustíveis. A Petrobras já anunciou reajustes no diesel e na gasolina”, acrescenta ele.
 
Por outro lado, as commodities agrícolas devem seguir em trajetória negativa no curto prazo, pondera Lima, o que também vai moderar a inflação dos alimentos ao consumidor, a principal “vilã” de 2020. Dentro do IPC-M, que tem participação de 30% no indicador geral, o grupo alimentação subiu 12,69% no ano. Os gêneros alimentícios (aqueles encontrados em supermercados) avançaram 16,89%.
 
No varejo, outras ajudas à inflação no primeiro trimestre virão da bandeira tarifária amarela nas contas de luz em janeiro, além do fim do auxílio emergencial, que terá impacto negativo na renda dos consumidores, e da alta mais fraca de passagens aéreas, enumera o economista.
 
“Neste começo de ano, vemos mais vetores para baixo do que para cima, tanto para a inflação no atacado quanto no varejo”, resume Lima, para quem o IGP-M terá alta de 6,5% em 2021. “A partir de fevereiro, devemos observar discussões sobre reformas estruturais e, com desfecho mais favorável delas, o dólar pode chegar abaixo de R$ 5.” Como riscos à estimativa para o IGP-M, ele menciona a trajetória do minério e o fenômeno climático La Niña, que pode afetar os preços de alimentos.
 
Assumindo que o câmbio será menos volátil como reflexo de uma política de vacinação e de uma proposta crível para reduzir a dívida pública como proporção do PIB, os IGPs devem perder ímpeto no próximo ano, concorda Braz, do Ibre/FGV.
 
“Dado que cremos que o ano que vem pode ter maior estabilidade do câmbio e redução gradual da incerteza, acredito que teremos um IGP-M muito abaixo do acumulado em 2020, sendo um terço disso [23,14%] ou menos, a depender das questões da covid e da política fiscal”, afirmou o coordenador do IPC.