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IGP-M tem maior alta mensal desde 2002 e pode acelerar ainda mais, diz FGV

Sob pressão do dólar, índice fechou setembro em 4,34% e acumula 17,94% em 12 meses


Fonte: Valor Econômico - 30 de Setembro de 2020

A escalada do dólar potencializou a valorização de commodities no mercado externo e também encareceu insumos industriais importantes, pressão generalizada que levou o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) a mostrar recordes de alta em setembro. Divulgado nesta terça-feira pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o IGP-M acelerou de 2,74% em agosto para 4,34% este mês — maior taxa mensal desde novembro de 2002, quando o índice subiu 5,19%.

Nos 12 meses terminados em setembro, o indicador avançou 17,94%. Também nessa medida, o aumento é elevado em termos históricos: a maior taxa registrada antes da leitura atual ocorreu em igual mês de 2003 (21,42%). Para André Braz, coordenador dos índices de preços da FGV, mesmo em patamar pressionado, é possível que a medição atual ainda não marque o pico dos IGPs em 2020.
 
“Houve desvalorização cambial adicional ontem, orientada pela questão fiscal. Se isso for mantido, pode gerar novas pressões inflacionárias dentro do IPA [Índice de Preços ao Produtor Amplo]”, disse Braz.
 
Com peso de 60% no IGP-M, o IPA subiu 5,92% em setembro, ante 3,74% um mês antes. No acumulado em 12 meses, a inflação no atacado atingiu 25,26%. Nessa comparação, o economista destaca o salto de 54,09% das matérias-primas brutas, que aumentaram 10,23% somente este mês.
 
Para ele, boa parte da aceleração está relacionada à trajetória do câmbio, que teve desvalorização de mais de 30% em um ano. Em setembro de 2019, observa Braz, a taxa de câmbio média era de R$ 4,10. Em igual mês deste ano, está em R$ 5,39. “Os IGPs são muito sensíveis à questão cambial. E o real mais desvalorizado atrai mais compradores para os insumos brasileiros, o que diminui a oferta no mercado doméstico e acaba pressionando mais os preços”, explicou.
 
Como exemplo de itens afetados por essa dinâmica, o coordenador menciona itens como soja, milho, carnes e, fora dos alimentos, minério de ferro. Em setembro, o minério foi o maior impacto de alta no IPA, ao aumentar 10,8%. Soja e milho foram a segunda e terceira principais pressões, com avanço de 14,32% e 14,89%, respectivamente, seguidos de bovino (alta de 7,38%).
 
“No atacado, todos os estágios de processamento registraram aceleração, e boa parte disso vem de alimentos”, observa Braz. Refletindo as matérias-primas mais caras, os alimentos processados avançaram de 2,98% para 5,99% na passagem mensal. Fora dos alimentos, o economista aponta influência do dólar mais alto nos preços de derivados do minério, que são importantes insumos na indústria de bens duráveis e na construção.

No varejo, porém, o repasse cambial deve ficar mais concentrado nos alimentos, como já vem ocorrendo, avalia Braz. Responsável por 30% do IGP-M, o Índice de Preços ao Consumidor - M (IPC-M) aumentou 0,64% este mês, vindo de 0,48% na medição anterior, com taxas maiores em educação (-0,62% para 1,73%), alimentação (0,61% para 1,30%) e transportes (0,87% para 1,07%).
 
Nos 12 meses até dezembro, ressalta Braz, os alimentos aumentaram 9,1% dentro do IPC, que subiu apenas 3,04% na mesma comparação. “Todos esses repasses acabam se materializando de forma mais forte na parte de alimentos”, comentou, tendência que deve continuar nos próximos meses, elevando a inflação mensal ao consumidor.