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Consignado puxa aumento da portabilidade no crédito

Modalidade respondeu por 98,8% das operações em 4 anos

20 de Março de 2020

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O crescimento da portabilidade de crédito nos últimos anos foi puxado quase exclusivamente pelos empréstimos com desconto na folha de pagamentos. De novembro de 2015 até o mesmo mês do ano passado, o crédito consignado foi responsável em média por 98,8% do total de empréstimos transferidos de um banco para o outro.

No período, a portabilidade total passou de R$ 5,9 bilhões para R$ 37,3 bilhões, alta de 527%. Só no crédito consignado, subiu de R$ 5,8 bilhões para R$ 35,7 bilhões, expansão de 511%. Os números, acumulados em 12 meses, são da Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), onde ficam registradas as operações de portabilidade.

Diversos motivos explicam esse crescimento. Mas a queda dos juros é vista como o principal deles, mesmo que o consignado, por ter menor risco de inadimplência, já apresente em média taxas menores do que as demais categorias. Segundo a Associação Brasileira de Bancos (ABBC), entre janeiro de 2017 e novembro do ano passado a taxa média ponderada da linha caiu de 2,18% ao mês para 1,57% – o menor patamar da série histórica.

“A taxa de juros média ponderada vem apresentando queda consistente desde 2017, seguindo a tendência da Selic”, diz Alex Sander Moreira Gonçalves, diretor de crédito consignado da ABBC. “Pequenas reduções na taxa de juros podem significar montante significativo de mais crédito ao cliente, tendo em vista que [no caso do consignado] são operações de longo prazo. Servem também para reajuste da capacidade financeira e maior conforto no orçamento”, destaca a Caixa Econômica Federal, em nota. Com isso, a partir da atuação dos correspondentes bancários, o mercado ganhou novos entrantes, segundo o banco.

Desde outubro de 2016, a Selic caiu de 14,25% ao ano para 4,25%. Os cortes promovidos pelo Banco Central (BC) tiveram impacto ainda maior em outras linhas de crédito. Foi o caso dos empréstimos para aquisição de veículos (alta de 4.625% nos últimos quatro anos), pessoais não consignados (3.608%) e para aquisição de imóveis (1.689%). O volume de crédito transferido nessas categorias, entretanto, ainda é bem menor do que o do consignado: respectivamente R$ 29,2 milhões, R$ 11,2 milhões e R$ 1,5 bilhão, de acordo com os dados mais recentes.

“Nos últimos três anos a portabilidade do consignado tem de fato crescido bastante, até porque todos os bancos passaram a trabalhar bem o produto”, diz Francisco Junior, CEO da Olé Consignado, empresa coligada do Santander. Entre os exemplos desse aprimoramento, ele cita a possibilidade de contratação de empréstimos pela internet.

A crise econômica também é mencionada por alguns analistas como uma das razões para a alta da portabilidade do consignado. “Especialmente no momento que vai de 2016 a 2019, os bancos tinham razão de tentar se precaver da inadimplência”, afirma o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

Dados do BC mostram que a inadimplência média do consignado nos últimos quatro anos foi de 2,3%, enquanto a dos empréstimos para pessoas físicas em geral ficou em 5,4%. “Oferecer portabilidade para quem tem chance mais concreta de pagar é muito melhor”, afirma Vale.

No caso do Banco do Brasil (BB), que é líder do segmento, a transferência de consignado cresceu 41% entre 2018 e 2019. “Os resultados são fruto da queda de juros, além de fazer parte da estratégia do BB para conquistar clientes”, destaca a instituição financeira.

O uso da transferência de consignado como maneira de ampliar a carteira de clientes é, inclusive, disseminado entre os bancos. A Caixa afirma, por exemplo, que a medida é uma das estratégias para gerar negócios secundários.

Atualmente, a carteira total de consignado soma R$ 379 bilhões, dos quais 94% vêm de operações com aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) e servidores públicos, segundo a ABBC. Mas a percepção sobre os usuários varia de banco para banco. “A linha possui grande penetração entre os mais variados perfis de clientes, inclusive em relação ao uso da portabilidade”, destaca o Itaú, em nota.

O crescimento de transferência do consignado, entretanto, pode estar chegando ao fim, pelo menos em comparação com o ritmo verificado nos últimos anos. A avaliação mais disseminada entre as instituições financeiras é que a portabilidade da linha pode continuar em alta daqui para a frente, mas com uma velocidade menor.

“As condições oferecidas em termos de taxa de juros estão chegando cada vez mais próximas ao custo total da operação”, destaca a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), em nota. Esse custo leva em conta não apenas os juros, mas também itens como seguros e tarifas.