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A economia descolou ou é miragem?


Fonte: G1 - 18 de Julho de 2017

Em meio à maior crise política desde a redemocratização, este ano não para de trazer boas notícias na economia:

– A recuperação de 67,4 mil postos de trabalho no primeiro semestre;
– A queda da inflação para 3% ao ano – e consequente redução da meta inflacionária para 2019 e 2020;
– A expectativa do mercado de que a taxa básica de juros, a Selic, caia mais rapidamente e feche o ano em 8%;
– Como consequência, a expectativa de redução inédita no juro real (descontada a inflação) ao longo 2017, de um patamar de 6% para 4,6% ao ano;

 

Diante desse noticiário, duas perguntas se impõem: 1) a que se deve tanto otimismo?; 2) ele é justificado?

A resposta à primeira é simples: a economia descolou da política. Apesar da denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente Michel Temer, a agenda de reformas não foi interrompida. O mercado deposita confiança na equipe econômica e, num lance de sorte, até o clima tem favorecido a agropecuária.

 

A leitura que os agentes econômicos fazem da crise política é bastante diferente do cenário que transparece nas manchetes de jornal. Para eles, o que importa são as perspectivas – e elas se tornaram extremamente positivas com a nova lei da terceirização e a aprovação da reforma trabalhista.

 

O fim, para todos os efeitos práticos, do dinossauro da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) (leia mais aqui) representa um incentivo sem paralelo para empresas investirem e contratarem. Empregar, portanto produzir, será mais barato assim que todos os dispositivos da nova lei estiverem em vigor.

 

Outro impulso ao investimento vem do fim do surto inflacionário, com a expectativa de queda no juro real. Empréstimos mais baratos prenunciam ampliação do crédito. A diferença de patamar, superior a um ponto percentual, é gigantesca do ponto de vista matemático, como demonstra um cálculo simples de juros compostos. A consequência será o aumento no consumo, num círculo virtuoso que volta a impelir os investimentos.

 

Não há, portanto, do ponto de vista do mercado, cenário negativo na economia, pelo menos no curto prazo. Mesmo que Temer venha a cair, caso a denúncia da PGR seja aceita, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, já se disse comprometido com as reformas. 

 

O que nos leva à segunda pergunta: até que ponto o otimismo é exagerado? A resposta é um pouco mais complexa. Ela depende de dois fatores relacionados, que determinarão a rota de recuperação econômica no segundo semestre.

 

O primeiro, e mais urgente, é a reforma da Previdência. O sucesso na votação da nova legislação trabalhista em meio à crise voltou a dar esperanças à equipe econômica de que seja possível votá-la neste semestre. Mas, mesmo que haja votação, a reforma já foi retalhada e desfigurada a tal ponto, que todos sabem da necessidade de uma nova logo no início do próximo governo. As economias prometidas para os cofres públicos ficarão bem aquém do prometido.

 

E aí chegamos ao segundo, e mais relevante, fator: quando as contas do governo voltarão a dar sinais inequívocos de recuperação? A meta de déficit primário projetada para este ano, de R$ 139 bilhões, já se revela difícil de cumprir. O governo tenta fazê-lo com manobras contábeis duvidosas – como a recuperação de créditos de precatórios e coisas do tipo –, mas começa a ver como inevitável o aumento de impostos.

 

Sem uma reforma robusta na Previdência, as contas dos próximos anos ficam ainda mais prejudicadas. A perspectiva é que o Brasil volte a registrar superávit primário apenas em 2020. Implicitamente, o governo parece apostar no aumento de arrecadação, como resultado do crescimento econômico, para acelerar a saída do vermelho.

É uma aposta arriscada, que parece derivar apenas do otimismo de curto prazo do mercado. Nada garante que essa visão persista diante de uma reforma insatisfatória da Previdência, de um aumento inesperado de impostos ou de decepções no campo fiscal.

 

O país estaria bem mais seguro da recuperação se, além do compromisso da atual equipe econômica com as reformas, o governo contasse com força política para implementá-las. Isso, ele não tem – e não há perspectiva de que venha a ter até a eleição de 2018.