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Sacrifício além do necessário?


Fonte: G1 - 07 de Julho de 2017

A deflação de 0,23% em junho, divulgada nesta sexta-feira (7) pelo IBGE, recoloca no centro do debate a calibragem da política monetária. Seria o caso de aprofundar o corte na taxa de juros?
 
O Banco Central projetava deflação de 0,10% em junho. O mercado financeiro, de acordo com a última pesquisa Focus, deflação de 0,15%. O resultado de 0,23 faz uma diferença enorme. Jogou a inflação em 12 meses para 3% No limite de piso da meta.
 
Lembremos: a meta é de 4,5%, com tolerância, para cima ou para baixo, de 1,5 ponto percentual. O que significa que, abaixo de 3% o Banco Central também estaria descumprindo a meta. E teria que se justificar publicamente.
 
No relatório de inflação divulgado no final de junho, o Banco Central projetava inflação de 2,73% nos 12 meses fechados em agosto. Com o resultado de hoje deve ficar abaixo disso.
 
Pelas normas do sistema, a meta vale para o ano calendário, o índice em doze fechados fechado em dezembro. Mas uma inflação muito abaixo do piso da meta no decorrer do ano necessariamente recoloca em discussão o nível da taxa de juros, numa economia que se arrasta e com quase 14 milhões de pessoas sem emprego.
 
A lógica do piso é a seguinte: se a inflação caiu abaixo dele é porque, pelo menos em tese, a taxa de juro esteve alta além do necessário. Nesse caso, o Banco Central teria imposto à sociedade um sacrifício adicional desnecessário.
 
Deflação espalhada
 
Alguns dados: em todas as 13 capitais nas quais o IBGE faz a coleta de preços para apurar o índice houve deflação. Em Belo Horizonte a queda na média geral de preços foi de 0,48% e em Campo Grande de 0,40%. A menor deflação foi em Goiânia, queda de 0,04%. Mas Goiânia é a capital com a menor taxa de inflação acumulada em 12 meses: apenas 1,74%.
 
Desde agosto do ano passado a inflação acumulada em doze meses cai de forma rápida e consistente. Foi de 8,97% naquele mês e agora em junho apenas 3%. O IPCA caiu a um terço do que era. Desde a criação do sistema de metas em 1999 nunca se viu um processo desinflacionário tão rápido.
 
O preço dos alimentos, que durante vários anos foi a tormenta maior para o orçamento doméstico, passa por um prolongado período deflacionário. 
 
Os números: o índice para alimentos no domicílio foi: deflação de 0,51% em maio, deflação de 0,93% em junho  e deflação de 0,53% em doze meses.
 
Uma pergunta para finalizar: se a inflação continua ladeira abaixo; se o risco político não fez disparar a cotação do dólar, que por sua vez pressionaria a inflação; se a economia continua anêmica; se o desemprego está elevadíssimo; se há capacidade ociosa para todo lado-indústria, comércio, serviços, mercado de trabalho- o que falta para uma redução mais rápida da taxa de juros?
 
Se a inflação caiu além do projetado e a taxa de juros nominal continua a mesma, isso significa que a taxa de juros real subiu. Um bom problema para o Banco Central resolver. Pior se fosse o contrário: a inflação voltando por causa da crise política.