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Na busca por crédito, empresa deve pensar como classes C e D


Fonte: DCI - 26 de Junho de 2017

A decisão de tomar um empréstimo é um dos momentos mais delicados na administração de qualquer empresa. Com distintas características e demandas, pequenas, médias e grandes companhias enfrentam dúvidas semelhantes frente à incerteza do cenário econômico e político. Segundo dados do Banco Central, o total de empréstimos das instituições privadas a empresas atingiu R$ 1,2 trilhão em abril - dado mais recente disponível. Este é o menor volume apurado desde outubro de 2013.

 

Apesar do volume de recursos, o mercado de crédito ainda é pouco explorado pelos pequenos empresários. Segundo especialistas, o medo do endividamento ou das elevadas taxas de juros afastam empreendedores desses recursos. E não é de todo sem razão, explica o professor dos MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Sérgio Bessa. "O reforço do capital de giro deve ser permanente. As empresas que sobrevivem às crises são as que privilegiam recursos em caixa, ao invés de se endividarem a taxas maiores do que as margens de seu negócio permite".

 

Entretanto, se essa opção não é possível na vida real, ele aponta que é justamente no longo prazo que está a maior segurança. "O empresário desses segmentos deve pensar como o consumidor das classes C e D, ou seja, buscar o crédito que lhe oferece a menor prestação pelo maior tempo possível, algo que caiba em seu orçamento sem comprometer a atividade", aponta. Ele ressalta que, na maior parte das vezes, o gestor receia contrair financiamento de longo prazo, achando que pode não conseguir pagar, e opta por um prazo menor, que gerará uma prestação muito mais alta. "Isso atrapalha o negócio dele", garante.

 

Embora para a pessoa física empréstimo de longo prazo possa significar juros mais longos, essa realidade não é líquida e certa para empresas. No mercado há diferentes modalidades de crédito, concedidas por distintas instituições, como as oferecidas pelas agências de desenvolvimento estaduais, dentre elas a Desenvolve SP. Essas linhas foram criadas para apoiar pequenos e médios negócios, ofertando juros mais baixos e prazos mais longos que os bancos comerciais.

 

Além de assegurar a menor prestação possível, o coordenador do Laboratório de Finanças do Insper, Michel Viriato, ressalta que é fundamental que o empresário assuma a amortização do empréstimo "como a mensalidade de um serviço contratado, algo que fará parte de suas despesas fixas". O fundamental, segundo ele, "é identificar o melhor tipo de crédito disponível para aquela necessidade e a taxa que ele pode aceitar sem comprometer a saúde da empresa".

 

O cálculo que Viriato indica como base para qualquer decisão consiste em dividir o valor do lucro operacional pelo valor dos ativos existentes, de modo a obter a medida de sua rentabilidade. "Se a taxa for maior que a rentabilidade de seu negócio, ele não deve pegar aquele empréstimo, pois não será sustentável e ele deve buscar outra opção", acrescenta.

 

Viriato pondera, ainda, que há casos em que o empresário está apertado e precisa de capital de giro para pagar despesas fixas. "Nesse caso, excepcionalmente, ele vai captar uma linha com prazo de dois ou três meses, no máximo. Uma quantia menor para fazer frente àquela emergência, mas não pode fazer disso uma alternativa permanente, porque se todo mês ele precisar reforçar o caixa, é sinal de que ele não está administrando bem seu negócio", avalia.

 

Segundo Nicola Tingas, economista chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), o que falta ao empresário brasileiro é informação básica sobre o crédito e os diferentes tipos de financiamento. "Existem questões estruturais, a inflação seria uma delas na década de 80 e no início da de 90, déficit fiscal, déficit externo, uma série de problemas", cita. Ele ressalta que o Brasil "melhorou em muitas coisas, mas mesmo assim ainda não conseguimos planejar no longo prazo". Para o economista, eliminar o fantasma dos juros altos depende, entre outros fatores, da confiança do empresário na economia nacional. "Com estabilidade econômica, o empresário consegue ter visão e operar com regras estáveis ao longo dos anos, confiar no mercado. Os bancos também conseguem emprestar com menos risco, assim as taxas vão naturalmente cair. Precisamos de um ambiente que permita tudo isso", afirma Tingas.

 

É relevante lembrar, ainda, que clientes com melhor perfil de relacionamento com o mercado, com histórico de pagamentos em dia em operações anteriores, com suficientes níveis de renda ou faturamento, têm acesso a taxas de juros mais baixas. Da mesma forma, as taxas de juros das diferentes modalidades de crédito variam de acordo com a natureza e a qualidade das garantias oferecidas.

 

E se o empresário tem dúvidas sobre se uma taxa está efetivamente adequada ao seu negócio, o especialista Jean Paul Rebetez, da GS&Consult, oferece uma fórmula bem simples. Basta "comparar o quanto aquele dinheiro que ele pretende obter em uma operação de crédito renderia em um investimento e o quanto lhe custará financiado". Se a diferença entre ambos for superior a 1,5 vezes, alerta Rebetez, "ele pode começar a se preocupar".