Imprensa Notícias

A economia reage


Fonte: ISTO É - 02 de Junho de 2017

O pesadelo acabou. Depois de encolher por oito trimestres consecutivos, o PIB, enfim, deu sinais de vida. Na quinta-feira 1º, o IBGE informou que o País cresceu 1% no primeiro trimestre de 2017 em relação ao quarto trimestre do ano passado. Além de indicar a saída da recessão, o resultado trouxe um alento adicional: a economia foi capaz de resistir à crise política que se instalou em Brasília nas últimas semanas. Se, em um primeiro momento, a delação de Joesley Batista assinalava uma nova era de incertezas, não foi preciso muito tempo para a desconfiança se desfazer. Passado o susto, a Bolsa voltou a subir, o dólar se desvalorizou e uma leva de indicadores mostrou que a recuperação era mais consistente do que os derrotistas imaginavam. Em uma das principais demonstrações de descolamento do caos, o Banco Central decidiu seguir o ritmo de corte da taxa básica de juros, a Selic, e reduzi-la em 1 ponto. O temor inicial deu lugar a um sentimento comum: é preciso blindar a agenda econômica dos colapsos da política brasileira, tendo em vista que eles provavelmente não serão resolvidos a curto prazo.

 

Nos últimos meses, o noticiário econômico deu ao mercado financeiro muito pouco do que se queixar. A inflação teve consecutivas quedas e a previsão é de que chegue ao final do ano abaixo dos 4%. A taxa básica de juros, a Selic, deve baixar para um dígito, 8,5%. Até o desemprego, a pior herança da crise econômica gerada pelos governos anteriores, começou a dar sinais de arrefecimento: em abril, o País voltou a contratar e abriu quase 60 mil vagas. Por motivos como esses, os índices de confiança de consumidores e empresários voltaram aos mesmos patamares do final de 2014, quando a crise econômica ainda não havia estourado

 

Descolamento

É consenso entre o empresariado que a economia brasileira está mais robusta. “As contas externas estão equilibradas, temos um nível de reserva significativo. Isso evita que a histeria de curto prazo se torne crise”, afirma Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central.

 

Agora, o crescimento de 1% no primeiro trimestre também anima o mercado já que, tecnicamente, o resultado tira o Brasil da recessão. O setor de destaque foi o agropecuário, que teve seu melhor resultado em 20 anos, impulsionado pela safra-recorde de 233,1 milhões de toneladas. Para que os próximos resultados sigam a mesma trilha, é importante que outros setores também melhorem o seu desempenho.

 

É o caso da indústria, que já cresceu 0,9% nos primeiros três meses do ano. O setor de serviços, que representa mais de mais de 70% do PIB, teve variação e puxou o resultado total para baixo. Entre as empresas, o plano de investimentos para 2017 já foi iniciado. Segundo um levantamento realizado junto a 45 empresas pelo jornal Valor Econômico, os aportes previstos para este ano totalizam R$ 117,5 bilhões. Para Antônio Carlos Pipponzi, presidente do conselho da Raia Drogasil, o cenário é de normalidade e o otimismo em relação à retomada econômica continua o mesmo. Presidente do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV), ele conta que a expectativa é que o setor cresça de 1,5% a 2,5% nos meses de maio e junho, impulsionado pelo saque das contas inativas do FGTS.

 

Entre empresários, economistas e trabalhadores, o sentimento é o mesmo: a economia vai decolar, ainda que, para isso, precise deixar a política para trás. Diante da possibilidade de uma segunda troca de comando no governo em apenas um ano, empresários e investidores viveram o início de um déjà-vu. Mas, no lugar do abatimento, veio a reação. “Houve um primeiro momento de cautela e temor de que a crise pudesse desencadear a retomada do quadro recessivo anterior, mas em 72 horas isso já tinha sido superado”, afirma Marcos Gouvêa de Souza, fundador e diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza. “Existem alguns aspectos no País, a começar pelos 14 milhões de desempregados, que não podem permitir esse tipo de comportamento”. Especialistas concordam: a economia precisa amadurecer para além dos abalos políticos. “A estabilidade macroeconômica não pode ser sacrificada por crises”, diz Carlos Langoni.

 

Reformas

O empresariado brasileiro parece estar cansado de fazer suposições sobre a governabilidade do País e os desígnios da Lava Jato. “O mercado trabalha com a hipótese mais sensata: a de que o Congresso também terá maturidade de seguir a agenda positiva tocada pelo Ministério da Fazenda, independentemente de quem estiver no poder”, diz Marco Maciel, economista-chefe da Bloomberg Intelligence para a América Latina. Para ele, o mais importante é que a agenda de reformas não pare.

 

A equipe econômica do governo tem se empenhado para mostrar que segue trabalhando. A primeira das quatro votações previstas para a reforma trabalhista no Senado deve acontecer na próxima semana, no dia 6. O setor do varejo, que ainda sofre com os impactos da crise, é um dos mais interessados na sua aprovação. Ela, afinal, regulamenta o trabalho intermitente e deve facilitar o regime de contratação. A reforma da previdência, essencial para que o governo consiga realizar o ajuste fiscal, ainda não tem data para votação, mas o governo já retomou os esforços para obter os votos necessários. Segundo o relator da reforma na Câmara, o deputado Arthur Maia (PPS-BA), o projeto tem hoje o apoio de mais de 280 dos 308 deputados necessários. “Se continuar a aprovação das reformas, o clima acalma, o câmbio melhora mais um pouquinho. Se parar, a situação vai se deteriorar”, diz o economista Samuel Pessoa, chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV).

 

Os diferentes cenários podem mudar as projeções econômicas. A possibilidade de eleições diretas é a que traz mais preocupação para o mercado financeiro, pois anteciparia o clima de polarização política previsto para as eleições presidenciais de 2018. “Em um cenário como esse, o PIB de 0,5% deste ano pode chegar a 0% ou até a um número levemente negativo”, diz Maciel, da Bloomberg. “Em 2018, 1,7% pode virar 1%”. No caso de eleições indiretas, os nomes já são conhecidos do empresariado. “Essas surpresas no plano político mostram a importância do setor empresarial se posicionar a respeito do projeto estratégico da nação”, diz Gouvêa de Souza. “O importante é que, se o presidente Temer sair, venha um perfil acima de qualquer suspeita e que tenha uma visão pró-reformas. Acho difícil que surja alguém fora disso”, diz Pipponzi, da Raia Drogasil. Seja qual for o futuro político do Brasil, uma coisa é certa: a economia já reagiu – e tudo indica que continuará no mesmo viés positivo nos próximos meses.
 
 
28
30
28